segunda-feira, 24 de outubro de 2011

'Autoridades devem olhar mais o assédio no futebol', diz Neto

Ex-jogador fala ao 'Direto da Fonte' sobre Copa do Mundo no Brasil, política e pedofilia

24 de outubro de 2011 | 3h 06



DÉBORA BERGAMASCO - O Estado de S.Paulo
Entre Dilma e Ricardo Teixeira, Neto escolhe a presidente para mandar no Mundial de 2014. "Ela é que tem que partir para cima em termos de estrutura para que tenhamos uma boa Copa, porque uma ótima Copa nós não teremos". O polêmico comentarista da Band, que agora ganhou um programa para chamar de seu - O Dono da Bola - acaba de ser convidado para se filiar ao PPS. O ídolo corintiano com quase um milhão de seguidores no Twitter despista: "Agora não é o momento para entrar na política". Se fosse, já teria até bandeira para levantar: "Muita gente usa o poder como diretor, como técnico para usar do benefício sexual com os meninos (da categoria de base)", revela Neto, sugerindo mais atenção das autoridades para isso. A seguir, trechos da conversa.
'Dilma deveria tomar a dianteira. Tem que partir pra cima em termos de estrutura', diz sobre a Copa - Paulo Giandalia/AE
Paulo Giandalia/AE
'Dilma deveria tomar a dianteira. Tem que partir pra cima em termos de estrutura', diz sobre a Copa
Por que não vai para o PPS?
Já recebi convites também do PTB, mas não penso nisso... ainda. Trabalho na TV, tenho um bom salário, estou focado.
Quem tem que mandar na Copa: Dilma ou Ricardo Teixeira?
É a Dilma que deveria tomar a dianteira. Tem que partir para cima em termos de estrutura para que tenhamos uma boa Copa, porque ótima nós não teremos. Adorei a indicação dela para que o Pelé fosse o embaixador do Mundial. Se levar só pelo lado político, vai dar tudo errado. Mas você vê, o Pelé, que não falava com o João Havelange nem com o Ricardo Teixeira, agora está sentado junto conversando. Se não tiver um Pelé encabeçando, é melhor nem ter Copa aqui.
O que você acha da possível demissão de seu colega de emissora Rafinha Bastos, da Band?
Ele foi indelicado, mas tudo tem uma conversa, né? Eu não perderia um talento como ele por causa disso.
Você já foi chamado pela direção da Band pedindo para que pegasse leve?
Já. Mas não foi uma crítica. Me disseram: "Neto, você é comentarista de futebol, não de política ou de polícia". É que, às vezes, eu interagia com o Datena e acabava metendo o pau onde não devia. Mas nunca na Band ninguém me proibiu de falar do Ricardo Teixeira, do Dunga, do Joseph Blatter ou do ministro dos Esportes.
Nem mesmo para mudar o sotaque caipira?
Uma vez marcaram uma consulta com a fonoaudióloga da Band. Ela está até hoje me esperando (risos). O que eu estou tentando fazer é acertar o português. Como estudei até o primário, tenho dificuldades. Faço aula particular uma vez por semana. É conversação.
Como é uma aula de conversação em português?
Não preciso ter um português para empresa, nem fazer redação. A professora me assiste muito na TV, sabe os termos que uso. Às vezes, tenho dificuldades para fazer concordâncias. Já falei "mais maior", "chego", "fazem tantos anos". Hoje já não erro mais o plural. Não terminei os estudos porque fui idiota. Comecei a jogar bola, ganhar dinheiro e ninguém falou o que eu tinha que fazer, nem meus pais.
Por que decidiu fazer a cirurgia de redução de estômago?
Tentei de tudo, tomei até umas bolinhas fortes. Mas engordava tudo de novo. Quando parei de jogar, ganhei mais peso. Tenho 1,74 de altura e pesava 110 quilos. Já eliminei 27.
O que mudou na sua vida depois da operação?
Tudo. Sou mais disposto, brinco com meus filhos, jogo bola no master do Corinthians e meu desempenho sexual e a artrose nos tornozelos também melhoraram. Depois de cinco anos só usando roupa preta e larga, hoje visto calça jeans. Fui a uma festa e coloquei smoking, coisa que não fazia. Como as mesmas coisas, só que em quantidades pequenas.
Enquanto era jogador, você já sofria com sobrepeso. Já pegavam muito no seu pé.
Ainda pegam no meu pé. Hoje me veem magro e perguntam: "Pô, por que você não era assim quando jogava?". Falo: "Não era assim porque eu não queria, ué". As pessoas estão acostumadas a te cobrar pelo que acham que você deve ser.
Mas o excesso de peso não atrapalhava o rendimento?
Ah, atrapalhava. Se eu tivesse a cabeça que eu tenho hoje, teria disputado três Copas do Mundo e nunca fui a nenhuma. Não bebo há 11 anos, não fumo há quase oito.
E essa caixa de charutos e a pinga na estante?
Ah, isso eu ganhei. O charuto eu fumo, só que eu não trago, né? Com a bebida eu parei completamente quando minha filha nasceu. Eu ficava violento quando bebia, sofri acidente, quase morri. Agora, por que não fui para Copa? Fui irresponsável, não me cuidei. Fui considerado duas vezes o melhor jogador do Brasil, fui capitão de quase todos os times que joguei, mas não fui profissional, fui um boleiro que jogou muita bola. Poderia ter jogado no Milan, no Barcelona. Se o Rivaldo, o Romário e o Bebeto jogaram, acho que tinha condições de ter ido também.
Recomendaria uma cirurgia de redução de estômago para o Ronaldo?
O jogador profissional é sempre privado de comer, beber, dormir tarde. Ele tem que pensar na saúde. Ponto. Se eu fosse o Ronaldo, eu faria. Mas ele acabou de parar, deixa o cara ficar de férias.
Nesses anos de futebol, presenciou consumo de drogas?
Muito. Vi muita maconha, cocaína, glucoenergan (composto polivitamínico) na veia. Sem falar na bebida, né? Tenho uma história bonita, a do Alceu. Jogamos na Seleção Brasileira, no Guarani e moramos juntos. Ele sempre gostou de fumar maconha. Eu até já fumei uma vez, quando tinha 17 anos, e nunca mais. Aí as vidas tomaram rumos diferentes e fiquei uns 18 anos sem vê-lo. Soube então que ele viveu durante 11 anos viciado em crack, mas que agora tinha se recuperado. Liguei na hora para ele. Choramos. Há cinco anos ele não usa mais drogas e virou coordenador da fazenda de reabilitação de viciados em Florianópolis. Perguntei qual era o seu maior sonho e ele disse que era voltar a estudar. Hoje pago a faculdade de psicologia. Ele é o melhor aluno, me manda boletim e frequência. O problema é que a maioria dos ex-jogadores não estudou, muitos não souberam aplicar o dinheiro, e quase todos se separaram. Os clubes do futebol brasileiro não orientam os seus funcionários para essas questões, nem sobre as drogas.
Mas tem psicólogos nos Centros de Treinamento.
Ah, não acredito nisso, não. Eu acho que deveria ser uma coisa mais efetiva desde a categoria de base. Vamos citar o Jobson (que assumiu ser viciado em crack). Jogava no Brasiliense, ficou famoso no Botafogo, e ninguém ajudou o moleque? E a Fifa ainda quer afastá-lo do futebol por um ano? Em vez de colocá-lo numa clínica, reabilitá-lo, fazê-lo voltar para o futebol e servir como exemplo, os caras querem acabar com a vida dele tirando o seu emprego.
E a homossexualidade é comum no futebol?
Nas divisões de base sempre teve. E tem até hoje.
Como assim, na base? O jogador deixa de ser gay quando sobe para o profissional?
Não, não falei que os jogadores são homossexuais. O que eu disse é que muita gente usa o poder como diretor, como técnico, como outras coisas, para usar do benefício sexual com os meninos. Foi isso o que eu disse.
Existe isso no Brasil?
Muito.
No Estado de São Paulo?
No Brasil inteiro. Existe bastante. É que essas coisas não são divulgadas, mas quando eu trabalhei como gerente de futebol e quando fui jogador, a gente sabia disso. É velado. Para falar a verdade, é uma coisa muito séria, que o ministro dos Esportes e as autoridades deveriam olhar mais.
Mas as pessoas sabem disso?
Sabem sim, ué. Vou até te explicar: esses meninos, quando chegam nas categorias de base, deveriam ter escola, psicólogo, deveriam aprender sobre esse tipo de coisa, serem orientados mesmo.
Como seria esse assédio sexual? Seria do tipo...
Do tipo, não. Do poder que o cara tem e do menino que chega lá do cafundó do Judas e vem fazer teste em um determinado time. E, muitas vezes, tem que fazer esse tipo de coisa.
Tem que transar com o chefe?
Opa. É isso aí.
Você já foi assediado sexualmente?
Eu não, eu tinha cara de bravo. E com 15 anos já era titular do Guarani. Comecei na base com 11 anos, mas meu pai estava sempre comigo, isso faz toda diferença. As pessoas pegam sempre os meninos desprotegidos, que às vezes não têm dinheiro para comprar um lanche, uma bala. Isso é uma coisa que os dirigentes dos clubes deveriam perceber e fazer uma coisa legal. E não tem problema você ser homossexual, hétero ou bi. O problema é você usufruir de seu poder para ter vantagens sexuais.
Na época, aconteceu com algum amiguinho seu?
Ah, se eu tô falando isso é porque já, né? Mas eu não vou falar.
Por que jogador não assume publicamente ser gay?
Ah, tem um preconceito grande, o cara pode ter medo de perder o emprego, são muitas questões para compreender. Você vê aí o que o coitado do Richarlyson passa. Ninguém sabe se ele é homossexual ou não. Eu mesmo não sei, não o conheço. Mas e o que ele sofre no dia a dia jogando futebol? E o menino é um baita de um jogador extraordinário. Mas será que vale a pena expor a família? Não sei. Eu tenho homossexual na família.
Qual é o parentesco?
Não, não vou falar. E não tem problema, graças a Deus.
Arrepende-se de algo na vida?
A coisa mais horrível que eu fiz foi ter cuspido no rosto do juiz José Aparecido de Oliveira, em 1991. Foi feio demais da conta. No dia seguinte eu queria sumir, desaparecer, não queria ser eu mesmo. Senti vergonha da minha família. As pessoas que te amam, te perdoam. Fui massacrado. E foi merecido. Mas sou tão sortudo que, no mesmo ano, o santo papa veio para o Brasil e anistiou todos os pequenos pecadores. Eu pedi perdão para o José Aparecido ele me perdoou. Depois até o entrevistei. Mas eu não queria que minha filha Luísa soubesse disso na escola. Então cheguei para ela e falei: "O papai cuspiu no rosto do juiz, o papai foi muito sujo e nunca mais fez isso".
Em seu primeiro casamento, você e sua mulher tentaram gravidez por inseminação artificial. Foi com o mesmo médico do Pelé, o Roger Abdelmassih, condenado por assediar pacientes?
Não, não, foi em Campinas. Deus me livre. Olha isso: um dia eu estava deitado no sofá, olhando uma foto minha na parede de quando eu fui campeão pelo Corinthians em 1990. Pensei: "Caramba, conheço aquele cara". Aí levantei, olhei bem e... "Caralho, é aquele fdp daquele doutor!" Ele estava bem do meu lado. Tirei o quadro na hora. E joguei fora.

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